Para onde está indo o transporte?

Data: 08 de outubro de 2018

2-1-08102018-minQual caminho o transporte de carga irá seguir no futuro próximo? Passamos recentemente por uma grande paralisação, que mostrou na prática o que já se sabia: que o País é extremamente dependente do transporte sobre pneus e que uma paralisação geral é capaz de afetar todos os setores da economia.

Passado o impacto inicial e decorrido algum tempo, notícias surgidas nos mais diversos meios e veículos de comunicação nos levam a pensar sobre o assunto por outros ângulos.

Sobre a greve, assisti a entrevistas feitas enquanto a manifestação ocorria nas quais caminhoneiros declaravam que aqueles que estavam em Brasília, negociando em nome da categoria, não os representariam e, ao mesmo tempo, rechaçavam qualquer acordo firmado pelos mesmos. Até aqui, tudo certo. Todos temos o direito de escolher quem nos representa ou, ao menos, de nos identificarmos com um ou outro.

O problema é que os mesmos foram incapazes de indicar quem seria seu representante reconhecido. Da mesma forma, quais as reivindicações desejadas. Era uma barafunda de declarações, com apenas dois pontos em comum: redução do valor do combustível e criação de uma tabela de frete, ou, ao menos, o estabelecimento de um valor de frete mínimo. Ambas foram atendidas e ambas resultaram em desastres.

Os autônomos reclamam que não conseguem concorrer pelos melhores fretes com as empresas formalmente constituídas. Uma redução do valor do combustível beneficia a ambos – autônomos e empresas – igualmente, mas não resolve a questão.

Frete tabelado aumenta a interferência do Governo nas relações entre embarcadores e transportadores, o que é sempre negativo. E da forma como foi feito, elevou os custos para quem tem de pagar pelo frete. O resultado? Apenas para citar um exemplo, a JBS adquiriu 360 caminhões para compor frota própria e diminuir sua dependência em relação aos transportadores, sejam eles autônomos ou não. A Cargill sinalizou que deve fazer a mesma opção, assim como os produtores de grãos.

Com as empresas e produtores constituindo frota própria, é inevitável o aumento da ociosidade entre transportadoras e, principalmente, autônomos, que, segundo a Abralog – Associação Brasileira de Logística, já está entre 20 e 30%, dependendo do setor.

Resumindo, a greve foi um verdadeiro tiro no pé. Não resolveu nada e ainda criou mais dificuldades.

Outra notícia recente é o acordo entre Ambev e VW, que envolve a aquisição de 1.600 caminhões de propulsão elétrica para distribuição urbana, com meta de chegar a 1/3 da frota composta por veículos elétricos até 2023. Bom para o meio ambiente. Mas vamos analisar outros aspectos envolvidos.

Não foi divulgado o valor de cada veículo, mas tendo como exemplo os automóveis, provavelmente, serão bem mais caros que os similares a diesel. Isso significa que autônomos e pequenas empresas podem ficar de fora, a menos que sejam fortemente subsidiadas.

E a VW não está sozinha. Em setembro, durante o IAA, tradicional salão direcionado aos transportes, que aconteceu em Hannover, na Alemanha, a Volvo também apresentou modelos movidos à eletricidade, como noticiou A Boleia, por enquanto sem previsão de venda no Brasil.

Aí fica a pergunta: teremos energia suficiente para abastecer veículos, além dos consumos doméstico, industrial, comercial e público já existentes em nosso dia a dia? O País aproxima-se do limite de capacidade de instalação de usinas hidrelétricas, cada vez mais distantes dos centros consumidores, e ainda há a necessidade de instalar longas linhas de transmissão para trazer a energia produzida até onde estão aqueles que dela necessitam. As termelétricas são caras e poluidoras.

Parques de energia eólica, pelas dimensões das hélices e altura das torres com os aerogeradores, não podem ser instalados próximos a centros urbanos. Mesmo no campo, requerem distância entre as torres e, principalmente, de obstáculos físicos que existam no entorno. Uma dissertação de mestrado publicada pela UFRJ (http://bit.ly/parque-eolico) dá a dimensão dos cuidados necessários na instalação de parques eólicos. E também depende de linhas de transmissão.

Energia solar é outra opção, mas tem capacidade de produção limitada. Só conheço uma única fonte capaz de produzir energia em grande escala e próxima dos locais em que será consumida: usinas nucleares. Mas aí vê os riscos e a questão do lixo atômico.

Primeiro, esquecem-se que linha de transmissão é quase sinônimo de desmatamento. Sobre os riscos, sim, eles existem. Tanto quanto o rompimento de uma barragem, a queda de uma torre eólica ou a explosão de uma termelétrica. Riscos existem em todas as formas.

Mas quantos acidentes com usinas nucleares já aconteceram em todo o mundo? Só conheço dois: Three Mile Island, em 1979, nos EUA, e Chernobyl, em 1986, na então União Soviética. E ambos por falha humana.

Fukushima, em 2011 no Japão, foi consequência de um terremoto de 8,7 graus na escala Richter, seguido de um tsunami, ambos impossíveis de serem previstos.

 

É por isso que vejo com certa reserva a tendência de eletrificação no transporte. Parece-me viável apenas em centros urbanos, desde que resolvidos a geração e o fornecimento de energia.

Por: Redação Na Boléia

Data: 08 de outubro de 2018

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