Diesel de dendê pode ser mais poluente que o de petróleo, alerta estudo

Data: 21 de novembro de 2013
Postado em: Sustentabilidade


Uma das apostas do Brasil para reduzir sua dependência do petróleo é investir em combustíveis produzidos a partir de plantas, seja o conhecido etanol de cana-de-açúcar ou, mais recentemente, o biodiesel feito de óleo de palma, o famoso dendê. O governo brasileiro e empresas como Petrobras e Vale estão investindo pesado no óleo de palma, especialmente por causa de sua alta produtividade, em comparação com outras opções agrícolas para a produção de biodiesel. No entanto, o coro dos ambientalistas – que criticam a exploração do dendê para esse fim – acaba de ganhar mais um apoio importante.

Duas pesquisadoras do Instituto de Estudos de Transportes da Universidade da Califórnia, em Davis, publicaram no dia 14 de novembro de 2013 um estudo, fazendo um alerta sobre como a produção de biodiesel de óleo de palma, no Pará, pode gerar muito mais emissões de CO2 do que a do diesel tradicional, feito de petróleo.

A pesquisa, feita por Sahoko Yui e Sonia Yeh, afirma que o governo brasileiro precisa intensificar a fiscalização contra o desmatamento de florestas para o plantio de palmeira de dendê. Caso contrário, a expansão do setor pode se tornar inviável sob o prisma de se ter outra fonte de energia renovável, não apenas ampliando a emissão de poluentes mas também intensificando o desmatamento da floresta amazônica no Pará, maior produtor de dendê.

Cadeia de produção

As duas pesquisadoras usaram um modelo de cálculo que leva em conta toda a cadeia produtiva do óleo de palma, incluindo as emissões da extração em si, da mudança no uso de terras em áreas vizinhas ao plantio e do transporte necessário para levar a produção até os locais de escoamento.

Segundo elas, o governo não está levando em consideração as emissões provenientes do transporte, que são especialmente importantes dada as amplas distâncias a serem percorridas em um estado grande como o Pará.

Publicada na revista Environmental Research Letters, o estudo criou três cenários diferentes para analisar, durante três décadas, a quantidade de carbono emitido durante a produção do óleo de palma.

A principal diferença entre os cenários é a possibilidade de o plantio da palmeira não ocorrer apenas em áreas já desmatadas, como sustenta o Zoneamento Agroecológico da Palma, mas tomar áreas protegidas, diante da fiscalização precária na região.

No primeiro cenário, apenas um terço das plantações aconteciam em regiões já desmatadas, com o restante ocupando áreas de conservação ambiental e em terras indígenas.

No segundo e no terceiro, uma proporção maior das plantações (46% e 78%, respectivamente) ocorria em áreas já desmatadas.

Em cada cenário, 22,5 milhões de hectares de terra foram usados para a plantação, gerando quase 110 bilhões de litros de biodiesel por ano.

No primeiro e no segundo cenários, onde havia nenhuma ou pouca fiscalização, a mudança no uso da terra resultou em, respectivamente, 84 e 69 gramas de CO2 emitidas por megajoule. De acordo com a Comissão Europeia, a intensidade da emissão de carbono com o diesel é de 83,3 gramas de CO2 por megajoule.

No entanto, os pesquisadores deixam claro que se a extração, o refino, o transporte e a combustão real do biodiesel forem levados em consideração e adicionados às emissões calculadas nesses dois cenários, o total de emissões vai superar em grande escala a do diesel.

“Se o governo brasileiro quer promover políticas que encorajem o uso de terras desmatadas próximas de áreas ambientalmente e ecologicamente sensíveis, então ele também deveria considerar as consequências associadas à fiscalização precária, se quiser evitar danos irreversíveis ao meio ambiente”, disse Yeh.

Olho grande

A produção de biodiesel é uma das bandeiras do governo brasileiro nos últimos anos. Em 2006, de acordo com o estudo, o país produziu 69 milhões de litros do produto. Hoje, essa produção é estimada em 3 milhões de litros — mais de 80% proveniente da soja, de acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Mas o dendê vem ganhando espaço por sua produtividade ser maior do que outras opções para produções de biodiesel. Enquanto a soja produz cerca de 550 quilos de óleo por hectare, o dendê produz 6 mil quilos por hectare, ainda segundo a Embrapa.

Além disso, o dendê seria vantajoso economicamente também por precisar de pouca tecnologia para ser colhido e por crescer em solos pobres.

O investimento no setor provém ainda da necessidade de se aumentar a produção de biocombustível para suprir o crescimento da frota de automóveis no país (cerca de 150% nos últimos 12 anos), além da demanda do mercado de biocombustível para a indústria da aviação e da quantidade mais elevada do produto no óleo diesel.

Recentemente, o governo aprovou uma lei para destinar 4,3 milhões de hectares de áreas desmatadas para o plantio de palma, a maioria no norte do Pará, segundo o estudo da Universidade da Califórnia. O governo também identificou mais de 30 milhões de hectares de terras fora de áreas protegidas que são aptas para o cultivo.

Essa expectativa vem sendo aproveitada por empresas como Petrobras e Vale, que em 2001 comprou uma das maiores companhias do setor, a BioPalma, e anunciou que pretende investir quase R$ 1 bilhão para nos próximos anos.

Questionado pela BBC Brasil, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) não comentou o assunto por ainda estar analisando a pesquisa.

Ambientalistas criticam a expansão do plantio da palma, por considerarem que ele seja um dos maiores responsáveis pelos desmatamentos mundo afora.

O principal foco do problema é na Indonésia e na Malásia, os maiores produtores de dendê. Nesses países o plantio é feito em florestas, minando a biodiversidade local, expulsando de suas terras animais como tigres de Sumatra e orangotangos.

Data: 21 de novembro de 2013
Postado em: Sustentabilidade

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